Avanço dos crimes virtuais exige capacitação especializada, integração institucional e engajamento da sociedade na proteção da infância e da adolescência

O crescimento da violência sexual contra crianças e adolescentes no ambiente digital tem acendido um alerta em todo o país e mobilizado o Poder Judiciário a adotar respostas cada vez mais qualificadas. Dados recentes apontam que uma em cada cinco crianças e adolescentes no Brasil já sofreu violência sexual através da tecnologia em apenas um ano, segundo levantamento do UNICEF, evidenciando a urgência de ações efetivas de prevenção, repressão e acolhimento às vítimas.

De acordo com a juíza Dayana Claudia Tavares Barros de Castro, titular da 2ª Vara da Comarca de Boa Viagem, o Judiciário tem buscado acompanhar as transformações tecnológicas para garantir proteção efetiva à infância e à adolescência. “O crescimento da violência sexual no ambiente digital exige uma atuação cada vez mais especializada e integrada. Hoje há maior investimento na capacitação de magistrados, servidores e equipes técnicas para lidar com crimes cibernéticos e provas digitais, além do fortalecimento da cooperação com o Ministério Público, polícias especializadas, conselhos tutelares, escolas e plataformas digitais”, destaca.

Entre os principais desafios para identificar e responsabilizar os autores desses crimes, a magistrada aponta a complexidade do ambiente virtual. “Os criminosos muitas vezes utilizam perfis falsos, aplicativos criptografados e redes internacionais, o que dificulta a identificação. Soma-se a isso a subnotificação, já que crianças e adolescentes nem sempre reconhecem a violência ou têm medo de denunciar”, explica. Segundo ela, a responsabilização depende de investigações técnicas qualificadas e de uma atuação conjunta entre as instituições.

A juíza também ressalta que famílias e escolas ainda carecem de informação adequada sobre os riscos da violência sexual online. “Muitas famílias desconhecem os perigos presentes nas redes sociais, jogos e aplicativos de mensagens. A escola tem papel fundamental na educação digital e na orientação sobre prevenção. Precisamos fortalecer campanhas permanentes e ampliar o diálogo com pais e estudantes”, afirma.

No campo legislativo, Dayana Tavares avalia que houve avanços importantes, como o fortalecimento da proteção de crianças e adolescentes nos ambientes virtuais, mas reforça que o debate precisa ser contínuo. “A tecnologia evolui muito rapidamente, o que exige atualização constante das leis e dos mecanismos de investigação”, pontua.

A magistrada fala que é preciso denúncia e do engajamento coletivo. “O silêncio protege o agressor e prolonga o sofrimento da vítima. Denunciar é um ato de proteção e responsabilidade social. Proteger crianças e adolescentes é um dever coletivo, constitucional e humano, que precisa ser exercido diariamente por toda a sociedade”, afirma.