ARTIGO

Uma Audiência Especial – artigo do juiz Benedito Helder Afonso Ibiapina

2 de janeiro de 2018 Visualizada 32 vez(es).

Os artigos publicados no site da Associação Cearense de Magistrados (ACM) são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da entidade.

Manhã de dezembro. Semana dedicada às audiências de conciliação, envolvendo idosos e portadores de necessidade especiais. Mandei apregoar as partes. Minutos depois, adentra a sala a requerente. Uma senhora de mais de setenta anos, aproximadamente. O traje denunciava a origem humilde. Uma camisola de chita cobria-lhe o corpo, levemente curvado e esquelético. Uma cânula nasal fixada à entrada das narinas permitia que o ar chegasse aos pulmões. O tubo de oxigênio foi deixado ao chão. A mulher acomodou-se no sofá. Arfava. Um moço, de pé, aparentemente filho da parte, cuidou de enrolar e segurar o restante da cânula.

Ausente a requerida. Uma instituição bancária. O que estaria postulando a autora? Pensei. O que levaria uma idosa, doente, que respirava com ajuda de aparelhos, a procurar a Justiça? A desafiar as escadarias, rampas e os labirintos mal projetados do Fórum? Pensei. Rapidamente li a inicial. Constatei que se tratava de uma mulher solteira e aposentada. Pleiteava a senhora o pagamento de cerca de dois mil reais, sob o fundamento de haver pago a maior à administradora de cartão. Uma bagatela para a ré, mas uma fábula para a autora. Era assistida pela Defensoria Pública, que também não compareceu.

Me deu uma vontade de pedir desculpas à senhora. Pela ausência da instituição financeira, da Defensoria Pública, da dificuldade de acesso aos portadores de necessidades especiais às salas de audiência. Desculpas pelo Brasil das desigualdades sociais. Dos corruptos e corruptores, estes e aqueles responsáveis pela falta de assistência aos menos favorecidos. Mas me calei. Nada pude fazer no momento. A não ser determinar que os autos me tornassem conclusos logo após o recesso para o impulso pertinente. O juiz pode muito. Mas não pode tudo.

O que mais me chamou a atenção na senhora? O fato de em nenhum momento ela queixar-se da vida, tampouco do menoscabo da poderosa instituição financeira, que sequer justificou sua ausência, apesar de regularmente intimada. Afinal, não era a senhora cliente da administradora? Usuária do cartão? No mínimo, o comparecimento da ré era medida que se impunha, mesmo que não desejasse transacionar. Mas o semblante da mulher era sereno. Não demonstrava o menor descontentamento pela saúde. Ou pela falta dela. Menos ainda pela ausência da ré. E olhe que dependia de um tubo de oxigênio para manter-se viva! Percebi que era uma pessoa feliz. Apenas por poder respirar, ainda que com ajuda de aparelhos. Bem por isso não senti pena da senhora, mas inveja. A chamada inveja branca, a inveja que faz bem ao invejoso e não faz mal ao invejado. Aquela senhora precisava apenas do ar que respirava para ser feliz. Respirar, ou seja, viver era o bastante para ser feliz. Pelo menos para aquela senhora.

Antes de sair da sala, a senhora apenas comentou, sem resmungar, que teria de pedir mais três reais emprestados para o transporte. A quantia seria para a passagem de ida e volta, visando a comparecer à próxima audiência. Quis oferecer o dinheiro para a mulher. Mas não consegui. Havia me desmontado diante da nobreza da idosa, sobretudo do seu amor à vida. Minha voz embargou e os olhos marejaram. “O que é bonito enche os olhos de lágrimas”, diria Adélia Prado. E pensar que tem pessoas que buscam, alucinadamente, a fama e a fortuna, assim como outros prazeres mundanos, para serem felizes. Mas não a encontram.

Aquela senhora me mostrou que a gente precisa de muito pouco para ser feliz. “Viver e não ter vergonha de ser feliz” (como fala a canção do Gonzaguinha), é o suficiente. Ainda que seja com o auxílio de aparelhos. Viver é a própria felicidade. A vida é bela e mais bela é a natureza que nos cerca. Fato que, no mais das vezes, nossos olhos são cegos. Que busquemos, então, como escreveu Saint-Exupéry (e pôs em prática a senhora), a felicidade com o coração.

Benedito Helder Afonso Ibiapina
Juiz

Associação Cearense de Magistrados
Av. Santos Dumont, 2626 - Ed. Plaza Tower - Aldeota
Salas 1307 a 1311 - Cep: 60150-161
Tel/Fax: (85) 3264-8288
acmag@acmag.org.br